Tony Goes

E se 'Aquarius' não for mesmo o melhor filme para representar o Brasil no Oscar?

O roteiro comovente foi baseado em fatos reais. O elenco conta com atores estrangeiros, conhecidos da Academia de Hollywood. O público ainda desconhece este segredinho, mas os distribuidores já apostam: "Pequeno Segredo" pode ser uma das boas bilheterias de 2016.

Num ano, digamos, normal, o longa de David Schurmann seria um forte candidato a representar o Brasil na disputa pelo Oscar de filme em língua estrangeira, porque tem muitos dos ingredientes que costumam agradar aos jurados do prêmio. Mas este não é um ano normal: é o ano do impeachment. E é o ano de "Aquarius".

Assim como aconteceu com "Cidade de Deus", "Que Horas Ela Volta?" e o trabalho anterior do diretor Kleber Mendonça Filho, "O Som ao Redor", "Aquarius" é o filme brasileiro de mais elevado perfil internacional do ano. Como os demais citados, ele também participou de festivais badalados e arrancou críticas entusiasmadas no exterior. Como os demais citados, ele também parecia ser nosso indicado natural ao Oscar.

Acontece que "Aquarius" talvez não seja o longa nacional com maiores chances de levar o troféu da Academia. Não possui uma narrativa convencional e, nos Estados Unidos, se acomoda confortavelmente na categoria dos filmes de arte, o que não costuma seduzir os velhinhos que votam no Oscar.

Historicamente, os premiados na categoria de filme estrangeiro são filmes bem caretinhas. Muitas vezes de época, muitas vezes com crianças envolvidas. Se houver algum que fale do Holocausto entre os finalistas, então, é barbada.

Verdade que esse conservadorismo sofreu abalos nos últimos anos. A própria Academia mudou as regras, na esperança de que os vencedores refletissem o melhor do cinema internacional. Uma mudança em parte provocada por "Cidade de Deus", esnobado como filme estrangeiro em 2002 e indicado em quatro categorias de prestígio no ano seguinte.

Isto não quer dizer que hoje em dia só se premie a vanguarda. O próprio "O Som ao Redor", nosso escolhido em 2013, passou batido pelo Oscar. Por outro lado, "Aquarius" é estrelado por Sonia Braga, que já trabalhou e é amiga pessoal de inúmeros acadêmicos. Sim, isto conta.

O problema é que o nosso processo de seleção deste ano foi contaminado pela política. Se "Aquarius" não for o indicado, vão dizer que é perseguição. Se for, outros dirão que é por desagravo.

As qualidades intrínsecas do filme pesarão pouco. Menos ainda, suas chances reais de faturar o prêmio.

Mas isto talvez não interesse muito. Afinal, este é o ano de "Aquarius" —e portanto ele deve ser o nosso representante, para o bem e para o mal. Se perder, tudo bem: faltam poucos meses para 2017.

Tony Goes

tem 54 anos. Nasceu no Rio de Janeiro, mas vive em São Paulo desde pequeno. Já escreveu para várias séries de humor e programas de variedades, além de alguns longas-metragens. E atualiza diariamente o blog que leva seu nome: tonygoes.blogspot.com

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