Tony Goes

Festa de abertura da Olimpíada conseguiu unir a internet

Pela primeira vez desde, sei lá —2012?— nossos internautas pareceram concordar em alguma coisa.

Por quatro horas, não ficamos divididos entre mortadelas e coxinhas. Enquanto durou a cerimônia de abertura da Olimpíadas, fomos todos brasileiros.

Foi como se o orgulho estivesse logo ali, debaixo da pele. Bastou uma festa de encher os olhos para que ele aflorasse, rompendo a casca da vergonha e da autocrítica que construímos para nós mesmos.

Não era para menos. O espetáculo foi minimalista, elegante, preciso e fa-bu-lo-so. Dava para perceber que não havia custado uma fortuna, mas ostentava energia e criatividade.

Em dado momento, tive a sensação de que era tudo feito com barbante, cola de farinha de trigo e caixa de ovo. E, mesmo assim, estava sensacional.

Fernando Meirelles, Daniela Thomas, Andrucha Waddington e Débora Colker fugiram dos clichês com galhardia. Evitaram o Brasil turístico e paradisíaco, escondendo as bundas e o turbante com frutas de Carmen Miranda.

Também enfrentaram os problemas de frente. Falaram de escravidão, violência e devastação ecológica. Correram o sério risco de transformar a cerimônia numa aula chata e problematizada, mas brilharam.

Gente, o que foi aquela versão suave do hino nacional cantada por Paulinho de Viola? Que outro país teria coragem de tornar seu brado de guerra num acalanto?

Eu estava tão entregue que acreditei quando o 14 Bis saiu voando do Maracanã. Só não derramei lágrimas porque meu lado mau estava se divertindo com esse tapinha nos americanos, que ainda insistem nos irmãos Wright.

E o que dizer de Gisele Bündchen, exalando majestade e lacrando no mais longo, importante— e provavelmente o último desfile de sua vida?

Ou da tecnologia das projeções em 3D se juntando à alegria dos voluntários, que contagiou o estádio e o mundo?

Até Anitta, tão malhada nas redes sociais quando teve seu nome anunciado dias atrás, se saiu bem. Bonita, malemolente, com samba no pé, a cara de uma música que finalmente se renova.

E daí que ela talvez tenha cantado em playback, ao lado de Gilberto Gil e Caetano Veloso? Aviso à meia dúzia de inconformados: todo mundo usa playback, bebê. E se ele foi de fato usado, deve ter sido para garantir a performance de Gil, que ainda não está 100% depois de várias temporadas no hospital.

Tanta beleza e talento juntos conseguiram produzir uma quase unanimidade no Twitter, no Facebook e no Instagram. De repente, voltamos a ser o povo mais cool do planeta, morando no país onde a gambiarra vale mais que o dinheiro.

Não precisamos estar juntos o tempo todo, o ano inteiro, sem debates nem mágoas. Mas, de vez em quando, quatro horinhas de paz fazem um bem danado. E aquecem o coração mais do que a pira olímpica.

Tony Goes

tem 54 anos. Nasceu no Rio de Janeiro, mas vive em São Paulo desde pequeno. Já escreveu para várias séries de humor e programas de variedades, além de alguns longas-metragens. E atualiza diariamente o blog que leva seu nome: tonygoes.blogspot.com

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