Tony Goes

Choque cultural entre Brasil e EUA é um dos embates mais interessantes da Rio-2016

Os americanos estranharam o nosso café. Os americanos estranharam as nossas torcidas. Os americanos estranharam as nossas tangas e sungas.

Parece que os americanos estão estranhando absolutamente tudo no Brasil. E a nossa imprensa vem repercutindo cada estranhamento deles como se os caras fossem os árbitros de todas as coisas e nós, um puxadinho de Marte.

Mas este embate fora das quadras e piscinas é um dos mais interessantes da Olimpíada. Os Estados Unidos não costumam mesmo saber muito sobre nós: somos um país razoavelmente distante para eles, falamos uma língua com a qual não estão familiarizados, temos contrastes que eles não entendem (nem nós, é verdade).

Também somos a nação com maior potencial para rivalizar com os EUA em todo o hemisfério ocidental. Nossa área contínua é maior do que a deles, nossa população é imensa, nossos recursos, grandiosos.

OK, a área do Canadá é ainda maior que a dos Estados Unidos. Mas, culturalmente, os canadenses são quase uma extensão do"way of life" americano e não chegam a quarenta milhões de pessoas.

O México está ali bem ao lado e tem um tamanho considerável. Mas é visto por muitos americanos como uma espécie de quintal, fornecedor de drogas caras e mão de obra barata.

Já o Brasil tem a segunda maior economia das Américas e um potencial imenso, em boa parte inexplorado. Os americanos cultos sabem que, a médio prazo, podemos competir com eles para valer na arena global.

Os ignorantes não sabem disso, mas intuem. E aí, apelam para um festival de clichês: o Brasil é uma grande floresta infestada de macacos e serpentes, o vírus da zika contaminou a população inteira, todo mundo leva tiro todo dia por aqui.

Um dos objetivos políticos da Rio-2106 era, de fato, apresentar o país como uma potência emergente. Agora comemos na mesa dos adultos, como a Coreia do Sul depois da Olimpíada de 1988.

Só que os nossos Jogos estão acontecendo no pior momento possível. Nossa economia vai mal e nossa política está um caos. Além disso, alguns dos melhoramentos prometidos para o Rio nem saíram do papel.

E mesmo assim vem tudo se desenrolando relativamente bem, apesar de uma ou outra piscina esverdeada. A animação com que gritamos nas arquibancadas compensa eventuais competidores desconcentrados. Deixamos tudo para a última hora, mas é inegável que a maioria de nós está a fim de ajudar.

Essa simpatia também vem encantando os americanos, é verdade. A cobertura da rede NBC também ressalta o bom humor dos cariocas, não só os problemas da cidade.

Agora, nosso café é pior que o deles? Isto é motivo para declararmos guerra.

Tony Goes

tem 54 anos. Nasceu no Rio de Janeiro, mas vive em São Paulo desde pequeno. Já escreveu para várias séries de humor e programas de variedades, além de alguns longas-metragens. E atualiza diariamente o blog que leva seu nome: tonygoes.blogspot.com

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