Tony Goes

Após 30 anos da estreia do 'Xou', Xuxa ainda não superou a imagem infantil

Quando eu era pequeno, as apresentadoras de programas infantis pareciam professoras até no nome: quase todas eram chamadas de “tia”. Havia a tia Gladys, a tia Márcia, a tia Cidinha e, bendito entre as mulheres, o tio Molina.

Xuxa mudou tudo isto. Fez com que desaparecesse este degrau entre a criança e a apresentadora, pois tratava seu público de igual para igual. Era, no máximo, uma irmã mais velha. Mas só um pouco.

Nesta semana, está se comemorando o 30º aniversário da estreia do “Xou da Xuxa” (Globo), até hoje seu programa mais emblemático. Mas a loura já era a “rainha dos baixinhos” desde 1983, quando assumiu o comando do “Clube da Criança” na extinta TV Manchete.

Os pais ficaram horrorizados com o jeitão meio ríspido daquela modelo, até então mais famosa por ter namorado Pelé. Mas os filhos adoraram.

Xuxa reinou absoluta durante mais de uma década, e seu estilo lhe proporcionou uma batelada de seguidoras: Angélica, Eliana, Mara Maravilha, Mariane... Algumas delas estão aí até hoje, outras são vistas só raramente. E a própria Xuxa vem enfrentando dificuldades para redefinir sua marca.

Seus últimos anos na Globo não foram bons. Xuxa comandou uma série de atrações nos finais de semana que pareciam adaptações para adolescentes do antigo “Xou”. Mas ela nunca se desvencilhou da imagem de “rainha dos baixinhos”, talvez por ter insistido neste público por tempo demais.

Enquanto que rivais como Angélica passavam sem maiores percalços à idade adulta, Xuxa ficou presa no “ilariê”. Influência de Marlene Matos, que controlou sua carreira durante mais de 20 anos? Medo de perder o licenciamento de dezenas de produtos dirigidos ao mercado infantil?

O fato é que hoje ela paga um preço alto por ter demorado tanto a crescer. Primeiro enfrentou um tempo na geladeira na Globo, onde parecia estar destinada a uma semi-aposentadoria à la Renato Aragão — apareceria no “Criança Esperança” e um ou outro especial ao longo do ano.

A loura não topou esse esquema e preferiu se bandear para a Record. Lá, ganhou o que a Globo não quis lhe dar: um programa noturno, para adultos. Mas, já há um ano no ar, “Xuxa Meneghel” ainda patina na audiência, quase sempre amargando o terceiro lugar.

Acredito que parte da culpa seja da própria Xuxa. Uma constante da atração foi o reencontro com antigos fãs, hoje bem crescidos, relembrando um passado de glórias cada vez mais distante. Uma estratégia totalmente errada, se o objetivo era mostrar que a própria Xuxa já estava em outra.

Ela percebeu o problema, pois vem promovendo mudanças no ar e fora dele. Até riu de si mesma num ótimo esquete do “Porta dos Fundos”.

Mas será que é o bastante? O contrato com a Record já está quase na metade. Xuxa tem pouco tempo para se reinventar, se não quiser virar só uma lembrança.

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Tony Goes

Tony Goes tem 56 anos. Nasceu no Rio de Janeiro, mas vive em São Paulo desde pequeno. Já escreveu para várias séries de humor e programas de variedades, além de alguns longas-metragens. E atualiza diariamente o blog que leva seu nome: tonygoes.blogspot.com

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